
A elevação da taxa Selic para 15% tem provocado uma retração clara na concessão de crédito pelos bancos, em função do aumento significativo do risco de inadimplência. Entre março e junho, os atrasos com mais de 90 dias cresceram de 3,28% para 3,55%, atingindo o maior índice desde 2017.
Diante do cenário de juros elevados e desaceleração econômica, Bradesco, Itaú e Santander optaram por reduzir sua exposição ao risco. Os bancos concentraram suas operações em empréstimos garantidos e em clientes de alta renda, segmento menos vulnerável à inadimplência.
O Santander demonstrou ser o mais cauteloso entre os três grandes bancos, obtendo uma redução nos índices de inadimplência, ainda que isso tenha afetado levemente sua expansão de carteira de crédito. Já Itaú e Bradesco conseguiram manter a inadimplência estável ou reduzir, graças à seleção rigorosa de riscos.
A adoção de critérios mais seletivos na aprovação de crédito também reflete uma mudança contábil relevante: conforme a resolução 4.966 do CMN, os bancos podem manter créditos em atraso por mais de um ano sem declará-los como perdas, o que pode mascarar parcialmente o real aumento da inadimplência.
Nesse contexto de juros elevados, pessoas físicas e jurídicas enfrentam maiores custos de financiamento. Isso reduz o acesso ao crédito, penaliza famílias e pequenas empresas e tende a desacelerar a recuperação econômica — ao passo que limita o crescimento das carteiras bancárias.
Repercussões macroeconômicas e financeiras da Selic alta
A taxa Selic elevada, ao encarecer o crédito, não só pressiona os consumidores, como também agrava o quadro das finanças públicas. Com quase metade da dívida pública atrelada à taxa flutuante — diretamente influenciada pela Selic —, o país pode gastar cerca de R$ 1 trilhão apenas com juros em 2025.
O Banco Central optou por interromper o ciclo de alta da Selic em julho, mantendo a taxa em 15% para avaliar os efeitos já provocados pelo aperto monetário e observar sua eficácia no controle da inflação. A decisão é vista como uma pausa estratégica — ou melhor, uma interrupção —, conforme declarou Nilton David, diretor de política monetária.
Mesmo com a Selic mantida em patamar elevado, ainda persiste o desafio da inflação em patamares acima da meta de 3%. Recursos para estimular o consumo e o mercado de trabalho seguem impactando a trajetória dos preços.
Além disso, o crescimento do crédito a famílias, especialmente em segmentos arriscados como empréstimos pessoais sem garantia e financiamentos de veículos usados, segue impulsionando vulnerabilidades no sistema financeiro. O BC tem alertado para a necessidade de bancos manterem qualidade na concessão de crédito para garantir estabilidade financeira.
Dessa forma, o cenário exige uma postura equilibrada entre conter a inflação e evitar estrangulamento do crédito, sobretudo para micro, pequenas e médias empresas, que são mais sensíveis ao custo elevado do capital e à restrição de acesso a recursos.
Conclusão.
A Selic elevada atualmente em 15% tem levado os bancos a adotar critérios mais seletivos no oferecimento de crédito, priorizando operações com menor risco e seguradas, ao mesmo tempo em que o índice de inadimplência se mantém em alta. No plano macroeconômico, os juros elevam o custo da dívida pública e afetam o ambiente econômico, exigindo cautela nas políticas monetária e fiscal.
